Habano
Já alguma vez imaginou quanto tempo demora a preparar o charuto que segura entre dois dedos? Já pensou por quantas mãos passaram aquelas folhas, quantos passos foram cuidadosamente dados, que cuidados foram dedicados àquelas frágeis plantas para que adquirissem as características ideais? Aqui começaremos a levantar a ponta do véu…
O que é um charuto? Definir alguma coisa é identificá-la e, posteriormente, explicar quais são as suas qualidades essenciais. Mark Twain afirmou: “Ninguém me pode dizer o que é um bom charuto para mim. Sou o único juiz… Não existem padrões, pelo menos verdadeiros. A preferência de cada homem é o único padrão para ele, o único aceitável, o único pelo qual ele se deve reger.” Falando de um ponto de vista feminino, George Sand tinha a seguinte opinião: “O charuto é o complemento perfeito para um estilo de vida elegante.”
Mais apaixonado, o escritor inglês William Makepeace Thackeray dizia: “Acredito que o charuto tem sido a criatura mais reconfortante da minha vida – um delicado companheiro, um suave estimulante, um querido analgésico, um construtor de amizades…” De tudo isso se depreende que todos os fumadores de charuto nutrem emoções fortes sobre o seu objecto de prazer.
Então, comecemos por definir um charuto pelas suas características mais elementares, até mesmo óbvias. O charuto tem formato cilíndrico elaborado cem por cento a partir de folhas tabaco e está dividido em três partes: cabeça, corpo e pé. À extremidade que se coloca na boca convencionou-se designar cabeça e o pé corresponde à parte que se acende. Quanto à sua estrutura intrínseca, a composição de um charuto assenta em outros três elementos: a capa, ou revestimento exterior; a subcapa ou capote, que como o próprio nome indica é a camada que se encontra abaixo do revestimento exterior e serve de aconchego ao seu corpo; e a tripa ou enchimento.
Conhecer a anatomia de um charuto pode parecer aos menos interessados um preciosismo de aficionado, contudo, poder-se-á dizer que é a mestria dos sabedores em criar equilíbrios entre estes três elementos estruturais que permite fazer os diferentes tipos de charutos. Outras variáveis remetem-nos para a geografia, solos e condições climatéricas. Há quem discorde (e a maior parte das vozes dissonantes vêm dos produtores de tabaco da República Dominicana e Honduras), mas é um dado mais ou menos adquirido que o mais refinado tabaco do mundo chega de Cuba, a maior ilha das Antilhas.
A sua mais prestigiada zona de produção situa-se no extremo ocidental da ilha e é a terceira maior província de Cuba, a região de Pinar del Rio, cuja capital é Vuelta Abajo. Encaixada entre as montanhas e a costa, a região de Pinar del Rio é ondulante e muito verde. Embora o cenário seja paradisíaco, as condições de vida dos seus mais de 600 mil habitantes são quase primitivas. Mas as condições agrícolas são formidáveis – clima, pluviosidade (cerca de 1650 milímetros por ano, dos quais 203 caem num período de 26 dias) e solo (de um peculiar tom avermelhado, arenoso e muito fértil) –, perfeitas para o cultivo da planta do tabaco. As temperaturas da região são altas, habitualmente com médias de 26,5ºC, com cerca de oito horas de insolação diária e uma humidade que ronda, em média, os 64 por cento. Aqui o tabaco é, como tal, a principal cultura, cedendo apenas lugar ao milho fora das épocas em que a planta com que se faz os charutos não é cultivada.
O tabaco cresce abundante mas, surpreendentemente, aquele que dará origem aos conhecidos habanos vem de uma pequena área que rodeia as cidades de San Juan y Martinez e San Luiz. Não mais do que 2500 acres estão reservados para a produção de folhas de capa e 5 mil para tripas e capotes. A segunda maior zona de cultivo de Pinar del Rio é designada de Semivuelta e produz folhas mais espessas e de aromas menos delicados daqueles a que Vuelta Abajo nos habitua – normalmente é o tabaco utilizado para a produção de charutos para consumo do mercado interno.
Perto da capital, Havana, existe outra região de destaque, Partido, conhecida pelas capas que produz para os habanos “hechos al mano”… Outras regiões no centro e oriente da ilha também são propícias ao cultivo desta planta, embora não se comparem, em superlatividade, às de Vuelta Abajo.
O charuto começa com uma pequena semente lançada no solo fértil, banhado pelo sol e bafejado pelo ar quente vindo do mar, até que atinja, após dois ou três meses, o seu tamanho definitivo: 1,80 metros, aproximadamente. Durante este período de crescimento e fortalecimento da planta, a paisagem de Vuelta Abajo cobre-se de um intenso e luminoso verde e de um véu branco como um estranho manto de neve sob o sol escaldante das Caraíbas. São os contrastes dos dois tipos de cultura de tabaco destinados aos Havanos: o tabaco del sol, cultivado ao ar livre e o tabaco sob tapado, cultivado debaixo dos véus de algodão branco. Este véu funciona como um filtro, o tabaco sob tapado cresce protegido da luz directa do sol, das fortes chuvadas e dos insectos. Estas plantas são objecto de todos os cuidados pois destinam-se a uma mui nobre função: de servir de capa ao charuto e querem-se belas, perfeitas e grandes.
A capa tem, fundamentalmente, um papel estético e não influencia o paladar do charuto mas é um importante critério de qualidade. A sua cor, textura e suavidade constituem elementos essenciais uma vez que um puro também deve ser belo. Olhar o seu aspecto é o primeiro prazer que um apreciador tem. Ao tabaco del sol exige-se a força do aroma em detrimento da perfeição estética. Ele é o coração do charuto, são as folhas que baloiçam ao vento e livremente recebem os raios de sol que darão personalidade ao Havano. Após três meses, a planta já atingiu a altura de um homem e está carregada de folhas vivas de seiva, sol, força e aroma. E o veguero, nome dado aos agricultores, inspecciona-as e verifica, com sapiência, o estado das diferentes categorias de folhas: libre de pie, uno y medio, centro ligero, centro fino, centro gordo e corona – todas com características e fins diferentes.
Um charuto nunca pode ser, apenas, composto por folhas de libre de pie, pois não teria força alguma, do mesmo modo que sendo só composto por folhas de corona seria demasiado forte e, como tal, desagradável. Como já foi referido, será o equilíbrio adequado entre a quantidade de libre de pie e centro fino ou entre uno y medio e centro gordo que irá originar aquele charuto único e inigualável que Cuba oferece ao mundo. A arte reside aí, na mistura que compõe a tripa. É ela que, em conjunto com a adequada folha de capa, torna um charuto suave, médio ou forte, e assegura que este queime uniformemente.
A importância deste facto faz com que a recolha de cada tipo de folha seja feita em separado e, normalmente, com uma semana de intervalo. As primeiras folhas a serem recolhidas são as de libre de pie e o processo continua em sentido ascendente até à corona.
Em cada estádio o processo é o mesmo: as folhas são recolhidas manualmente e, depois, transportadas em pequenos molhes e com um cuidado quase maternal até às casas de tabaco, onde começa a sua fermentação e secagem. É o princípio de mais um moroso e delicado processo dos muitos envolvidos na produção artesanal de um verdadeiro habano.
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