Criança frustrada, adulto #chateado

Não me culpem: quando eu era pequena, morria de vontade de ir à Disney. Queria conhece o Pluto, o Pateta, o Mickey, o Pato Donald, as princesas todas, os castelos, ver aqueles desfiles incríveis de carros alegóricos com os personagens e todas aquelas moças lindas fantasiadas, perfeitas, com sorriso branco e lindos vestidos! Pra mim aquilo tudo era um outro mundo, pra onde a mente da gente ia quando estava sonhando, sabe? Essas coisas que as crianças imaginam e passam a acreditar de tão fantástico que parece.

E um dia, quando eu estava pra fazer 15 anos, meus pais me lançaram a mais importante pergunta da minha vida: “você quer uma festa de debutante ou uma viagem à Disney?”. QUASE MORRI!! Lógico que eu preferia a viagem! Imagina! Ficar uma semana inteira passeando naquele paraíso multi-colorido e repleto de coisas mágicas! Eu já estava maiorzinha, mas ainda tinha uma criança pulando e se jogando contra as paredes dentro de mim, e ela berrava: “ESCOLHE A VIAGEM!! ESOCLHE A VIAGEM!!”. Viagem escolhida, portanto.

Eles tomaram todas as providências. Me inscreveram numa dessas excursões que saem aos montes pra Disney, que enchem os aviões de adolescentes cor-de-rosa barulhentas que ficam cantando todas – todas! – as músicas de todos os desenhos já lançados. Hoje fico imaginando: que saco deve ser trabalhar de aeromoça num avião com excursões assim… Mas enfim. Roupas eu já tinha aos mont3es, mas minha mãe comprou mais algumas pra eu levar – mas nenhuma da Disney porque essas eu compraria lá mesmo, originais, nos “istêites”. Passaporte, documentos, autorização, tudo certo. E aí, a pouco mais de uma semana da viagem… alguma coisa que comi, não ficou muito claro, me desarranjou. Uma diarreia que vocês não queiram saber! Acordei com a barriga barulhenta e corri pro banheiro, onde a compostura não encontrou lugar.

Remédio Annita para diarreiaFiz tanto barulho lá (eu, não, meu intestino expurgando o capeta) que minha mãe bateu à porta pra saber se eu precisava de ajuda com o pressurizador que eu estava usando pra pintar o banheiro. Ô vontade de xingar… mas mãe é mãe, então não pode. Só sei que saí de lá branca, com a boca seca, fraca e sem entender nada. Nunca havia tido uma diarreia feito aquela! Minha mãe me levou ao médico naquele dia mesmo e ele foi taxativo: hidratação pesada, annita e repouso por pelo menos duas semanas, porque aquilo ali era bacteriano, e era sério.

O quê??? E a minha viagem???

Ora… cancelada. Como é que eu poderia fazer uma viagem internacional naquelas condições? Os Estados Unidos poderiam pensar que tinha uma arma química destravada e abater o avião (e provavelmente estariam certos, porque nem a plantinha que tinha ao lado do vaso aguentava o cheiro, imagine uma população). E além do mais, eu estava muito desidratada – aliás, no terceiro dia desidratei tanto que precisei ir pro hospital receber soro na veia; foram seis bolsas no total, de tão sério.

No dia da viagem, eu estava em casa, mas estava tão debilitada que nem me lembrei disso. Só lembrei depois de uns quatro dias, quando minha hidratação melhorou e o ânimo retornou, em parte. Entrei no Orkut e dei de cara com as fotos que a “minha turma” de viagem estava tirando e postando no grupo que criamos. Nossa mãe, que raiva… Eu só lembrava do fato de que uma caganeira dos diabos estava me impedindo de realizar a maior viagem da minha vida! Minha mãe havia conseguido cancelar minha ida e disse que poderiam me colocar em outra excursão, mas meu aborrecimento era tão grande que eu pedi pra canelar de vez. Queria ter ido com aquela turma, naquela excursão. Me sentia uma vidraça quebrada.

Aí eu cresci

Cresci, entrei pra faculdade, conheci um cara muito legal e, depois de alguns anos de namoro, nos casamos. Tivemos uma filha muito bonitinha (sou suspeita, mas é sério: ela é muito fofa!) que é louca pelas princesas da Disney, mas particularmente pela Merida, daquele desenho “Valente”. Acho que é porque elas se parecem muito: as duas têm cabelos ruivos, muito encaracolados e rebeldes e um gênio forte pra dedéu!

anos-mais-tarde-realizaria-meu-sonho-com-minha-pequena-princesaMeu marido sabia da minha viagem frustrada à Disney e pensou numa solução: faríamos uma viagem em família pra lá quando Luana fizesse cinco anos. É uma idade bacana, ela curtiria mais a viagem, já não estaria mais usando fraldas, não ficaria com medo “daqueles bonecos gigantes” (ele não curte muito Disney, coitado), conheceria a Merida… e eu mataria a minha vontade, soterrada há tantos anos. Confesso que meu coração eu um pulo quando ele falou isso! Mas eu já érea uma mulher adulta e me controlei pra passar um mínimo de sofisticação e resiliência: “imagine… eu já me curei daquilo… mas a Luana vai adorar!”. Ele me olhou com cara de quem sabia que eu estava escondendo o jogo e caímos na risada. Era verdade, mesmo!

Não deu pra fazermos a viagem na época em que planejamos porque, imagine só: quem teve diarreia foi a Luana, que passou pro Osvaldo! Nunca ri tanto! Que maldade… Foi uma virose que um passou pro outro. A viagem saiu dois anos depois, quando Luana já estava com sete – e foi melhor, porque ela estava maiorzinha e pôde curtir mais ainda.

Pra mim foi uma cura de um machucado de anos atrás. Até meu jeito de ser mudou (pra melhor) depois desse passeio! Engraçado como essas coisas ficam na gente, não é?

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