Dengue de novo?

Hoje em dia, uma grande ameaça é o mosquito aedes aegypti, causador da dengue, do zika vírus e da chikungunya.

Hoje em dia, uma grande ameaça é o mosquito aedes aegypti, causador da dengue, do zika vírus e da chikungunya.

Você já teve dengue? Eu já. Na verdade, estou me recuperando de uma delas agora mesmo. Uma delas? Sim. Essa é a minha terceira – ter-cei-ra! – crise. E o pior, em menos de um ano! Eu fico pensando e tentando entender o que é que eu fiz para merecer uma coisa dessas! Para o tamanho do castigo, eu devo ter feito uma burrada sem tamanho! Mas o quê?

Meu médico já falou para mim: “se tiver dengue de novo, vai ser a hemorrágica, porque cada tipo você só pega uma vez, e são quatro, no total”. Ou seja, até agora eu tenho conseguido me recuperar em casa mesmo, mas se eu pegar de novo, vai ser uma semana no hospital – ou mais! E eu não tenho muita certeza se lá tem programação da TV fechada, não. Imagina?

Focos por perto

Por causa da frequência das minhas crises, o hospital notificou a vigilância sanitária e eles enviaram dois agentes de endemias aqui para casa, porque provavelmente o foco estava aqui – ainda que ninguém mais da minha família tivesse ficado doente junto comigo. Reviraram tudo, até o ralo do chuveiro (minha mãe morreu de vergonha porque ele estava entupido e meu pai nunca dava a manutenção prometida). Não acharam nada. Nossa geladeira não tem aquela gavetinha atrás pra conter a água do degelo, as poucas plantas que temos não usam pratinho debaixo do vaso, a sacada está com o escoamento de água normal, não havia calhas por perto…

Mas se o foco não estava aqui em casa, onde estava, então? Lá foram os agentes vistoriar o apartamento dos vizinhos – e não acharam nada. Até havia alguns pratinhos de plantas acumulando água, mas foco, mesmo, não encontraram. Foram para as casas e prédios vizinhos; nenhuma novidade. Aliás, descobriram que naquela região, só mais duas pessoas, além de mim, haviam contraído dengue – e a única pessoa que teve tantas crises sucessivamente fui eu. Como eu estava com tempo, fiquei zapeando entre os canais de notícias da programação da TV fechada para ver se falavam alguma coisa da minha região, um surto… Mas nada.

Mea culpa?

Um dia, uma comissão investigativa veio à minha casa para continuar procurando as causas das minhas crises: um clínico geral, um agente de endemias e um figurão da secretaria de saúde. Me encheram de perguntas sobre meus hábitos e os locais que eu frequentava – nenhum sob suspeita. Eu trabalhava num escritório de uma fábrica de móveis que fica longe de fontes de água e que tem galpões muito bem cobertos. O agente de endemias fez uma cara de quem desconfiava de algo e sugeriu que a comissão fosse lá conferir.

De fato, havia poucos casos de dengue entre os funcionários de lá, e os galpões eram bem cobertos. Investigaram todo o interior, atrás de cada ripa de madeira e não havia acúmulo de água em lugar algum. Nenhuma fonte de umidade nas paredes, nenhum vazamento em torneiras ou mangueiras… nada. Havia um canil nos fundos, com cães que eram soltos à noite para ajudar na segurança, mas, após a vistoria, nada de errado foi constatado, já que a água deles era trocada todos os dias. Mas enquanto estavam no canil, os cães ficaram alvoroçados e correram numa certa direção. “Ah, é um gato que vem aqui todo dia, os bichos ficam doidos quando ele chega”. O agente de endemias gostava de gatos e sabia que, se um mesmo gato aparece todo dia, é porque tem algo ali que o interessa. E foi atrás.

E descobriu um pote plástico com ração para gatos e outro com… água. Mas uma água que já não era movimentada há tempos, pois até um lodo já se formava ali. Como gato não gosta de água parada de muito tempo, aquele bichano só tinha interesse pelo pote com a comida, e a água foi ficando, até virar criadouro do mosquito. E adivinhem aonde esses potes estavam? Debaixo da janela do meu escritório. E quem tinha deixado aquilo lá? Pois é, eu mesmo. Adoro gatos, mas esquecia de trocar a água.

Levei uma bronca tão feia do meu chefe que eu quase preferia ter sido demitido. Em casa, levei uma da minha mulher e outra da comissão. Nunca mais eu esqueço de trocar a água.

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