Melhor do que ser surdo…

Régis era um amigo meu muito chegado, que praticamente foi meu vizinho durante toda a infância. Vivíamos num bairro afastado que ainda não tinha um único prédio – na verdade, nem casa com mais de um andar havia! Era um local realmente diferente do restante da cidade, tomada por prédios e arranha-céus a perder de vista. E por ser um lugar afastado e com moradores mais tranquilos, envolvidos com menos correria, lá era também muito mais calmo. Régis era um apaixonado pela tranquilidade por causa disso, acredito.

Aí aconteceu que crescemos e resolvemos fazer faculdade: eu fui fazer Sistemas de Informação e Régis escolheu Contabilidade (sempre foi um caxias da Matemática, era impressionante. Eu , se depender de fazer uma soma simples sem calculadora, estou perdido!). Estudávamos na mesma instituição mas, como ela ficava do outro lado da cidade (e isso em uma cidade grande significa MUITA distância), achamos que seria melhor alugarmos um apartamento pequeno, de dois quartos, que ficasse mais perto de lá. Seria mais prático pra nós porque também tínhamos aulas noturnas. Mas não havíamos reparado num detalhe: ao lado, funcionava a sede de uma empresa de mudanças que dispõe de um guarda-móveis.

A zoeira never ends

movimentacao-guarda-moveisA rigor, isso não seria problema nenhum; nem a rigor, nem num domingo porque, nos outros dias… Era barulho demais. Pra ser franco, eu nunca pensei que um guarda-móveis pudesse ter uma atividade tão, mas tão barulhenta! A empresa era muito grande e, por isso, tinha vários caminhões. Acho que não se passou um único dia sem que todos os caminhões estivessem ocupados! E muitos deles voltavam para a sede carregados com os móveis de alguns clientes, para que fossem guardados num dos galpões dali.

E é aí que mora o problema. O pessoal fazia tanto barulho pra descarregar, tanta confusão que às vezes pensávamos que tinha alguma coisa errada acontecendo ali: um assalto, uma invasão alienígena, um baile funk… Era muito barulho, gritaria, palavrões, música alta, um mexendo com outro… E era o dia inteiro!

Aí eu olhava pro quarto do Régis já prevendo a reação dele: o rosto trancado, enfurecido, a lapiseira quase sendo partida ao meio de tanta força presa no punho. A respiração dele ficava ofegante e o rosto ficava vermelho, inchado, a testa completamente enrugada. Pensava comigo: “pronto, esse cara vai até lá e vai matar um”. Olha… se não fosse ilegal, ele já teria feito isso algumas vezes!

Política da boa vizinhança?

empresa-de-mudancas-guarda-moveis-mais-barulhento-do-mundoPra tentar evitar uma “baixa”, achei melhor um dia ir até a empresa conversar com o dono, pra ver se o pessoal podia “gritar mais baixo”. Troquei umas ideias antes com o pessoal do prédio e fiquei sabendo que já haviam feito reclamações lá diversas vezes e nunca tinha dado certo – inclusive haviam recebido ameaças (sabe como é, desses gerentes bonzinhos). Já haviam enviado até abaixo-assinado mas não adiantou – talvez ele tenha até rasgado o documento.

Nem comentei nada com o Régis, senão ele ia ficar mais p… ainda. Mas conversei sobre isso com um dos meus colegas lá do curso e ele sugeriu conversar com um professor do curso de Direito; talvez ele tivesse alguma sugestão a respeito. Claro que o gerente estava errado em sua conduta, assim como os funcionários estavam errados na conduta deles mas, como esse era um caso de explícita falta de respeito com a vizinhança, o caldo ia precisar engrossar.

E não deu outra: o professor disse que aquilo já era caso de polícia e foi o que ele sugeriu. Obviamente, fazer um B.O. contra alguém que já atuava na vizinhança à qual nós havíamos chegado há pouco tempo não era a ideia mais prazerosa do mundo, mas não havia outra escolha. No dia seguinte, o barulho continuou, e Régis não conseguia estudar de jeito nenhum. Aí soltei a bomba: “vamos ligar pra polícia?”. Ele estava tão enraivecido que aceitou sem nem pensar. Ligou, informou o acontecido e disse que já estava indo pra lá pra registrar boletim de ocorrência contra a empresa. Desceu as escadas pisando duro e gritando que ia denunciar a empresa à polícia – e num segundo, apareceram vários moradores do prédio dizendo que iam junto.

Só sei que a história terminou assim: o gerente com os olhos arregalados, os funcionários escondidos atrás da porta, umas duas dúzias de moradores reclamando em voz alta e dois policiais numa viatura, tentando anotar tudo o que aquele mundo de gente dizia desordenadamente. Régis era um dos que mais falava, além de sacudir os braços no ar feito um doido. No final, até as ameaças passadas que o gerente fez ficaram registradas. Foi feio. Mas deu certo: a empresa passou a trabalhar “fazendo o barulho normal” de uma empresa de mudanças com guarda-móveis. E Régis fechou a prova.

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