Quando o que resta é dar conforto

Quem já perdeu pessoas queridas para doenças graves e destruidoras como câncer e fibromialgias sabe como é duro ver aquelas pessoas indo embora aos poucos. Muitas delas lutam até o fim, certas de que pela força de vontade (e da fé) podem alcançar uma cura na qual nem os médicos mais otimistas acreditam. Outras simplesmente aceitam que seu tempo aqui terminará antes do esperado e aguardam, pacientemente, seu momento final.

neozine-tratamento-contra-o-problemaTive uma amiga, dessas amigas de infância com as quais perdemos o contato mas que nos reencontros está tudo como antes, sabe? Uns poucos anos mais nova do que eu, ela já tinha uma vida formada integralmente: era casada, mãe de três filhos espertíssimos e muito bonitos, excelente funcionária de uma universidade federal. E foi que um dia eu soube que ela estava com câncer terminal. Lógico que levei o maior dos sustos! Ficamos tanto tempo sem nos vermos e, quando tenho notícias, é algo assim. Tratei de procurar pelo irmão dela, também amigo meu, e por ele eu soube que a coisa já estava tão feia que ela já tinha passado do Neozine para a morfina. Gelei.

O impacto visual

Liguei para a casa dela e conversei com o marido, o qual eu conhecia muito pouco. Me apresentei, falei com minha amizade com a Norma (nome fictício) e ele disse que se lembrava de mim no casamento deles. Morri de vergonha… não nos víamos desde o casamento ela já estava com três filhos… Como a gente se descuida das amizades… De todo jeito, falei que queria visita-la se fosse possível, e ele me convidou para ir a hora que quisesse. E no dia seguinte, eu fui.

Chegando lá, fui recebida por ele, que me avisou logo: a cena podia ser impactante pois a luta já durava dois anos, ela estava muito magra, careca e com manchas no rosto por causa da quimio. Foi um câncer que se iniciou no abdômen e migrou para o cérebro e ossos e, por causa disso, ela sentia muitas dores, sendo mantida sedada a maior parte do tempo para não sofrer. “Dois anos de luta… meu Deus, e eu sem saber de nada”, pensei comigo. Comentei que o irmão dela havia me falado sobre a morfina, e o marido confirmou: “é verdade. Chegamos no limite do Neozine e precisamos partir pra morfina, não teve jeito”. Fiz sinal afirmativo com a cabeça, pois não conseguia nem falar. A voz dele estava embargada e, do jeito que sou, eu ia acabar caindo no choro ali mesmo. Respirei fundo e entrei no quarto onde ela estava.

Norma estava meio acordada, no limite entre o mundo imaginário dos sonhos e a vida real. Me reconheceu assim que me viu e esboçou um sorriso onde apenas o lado direito do rosto sorriu. Então o tumor estava do lado esquerdo. Eu e minhas leituras em neurociências…

“Oi, Norma! Nossa mãe do céu, já te vi melhor, hein??” E ela: “Pois é… tô meio doentinha, mas já já eu melhoro, aí fico bonita de novo!”. E conversamos por um tempo até grande naquela tarde de verão! Ela estava bem, sem dor, então não tinha tomado o remédio. Conversamos sobre nossa infância, os bailinhos… (é, somos daquele tempo), os micos – e ela se lembrou de um meu que foi simplesmente terrível! Safada! – e os namoradinhos. Foi um papo muito agradável!

Uma flor de despedida

conversando-sobre-normaQuando ela se cansou e começou a se queixar de dor, ela também começou a delirar um pouco, talvez por causa do tumor. O marido veio e lhe deu o remédio, que fez efeito bem rápido. Logo que ela dormiu, conversamos mais um pouco ali mesmo, para vigiá-la, e reparei num potinho tipo aquelas garrafinhas de iogurte, de cerca de 100ml. Perguntei se ela conseguia tomar aquele iogurte, e ele me disse que na verdade era um alimento composto especial, para casos em que o paciente não consegue mais comer direito. Às vezes ela não conseguia tomar nem um daquele inteiro ao longo do dia porque sentia muita dor para engolir. Que doença devastadora…

Dois dias depois, voltei lá, levando um vaso pequeno com uma orquídea. Eu nem sabia se era conveniente manter uma flor ali no quarto com ela, mas a intenção era dar uma distração visual para os momentos em que Norma estivesse acordada. Eu gostaria de poder me distrair com algo quando não pudesse sair da cama, talvez ela gostasse também. Mas nesse dia ela passou mais tempo dormindo porque as dores haviam aumentado de intensidade e frequência. Em apenas dois dias! Me sentei ao lado da cama, peguei sua mão e rezei. Era só o que eu podia fazer, afinal. Ninguém entrou no quarto até eu sair.

E assim se sucederam as poucas visitas que fiz, antes que ela piorasse a ponto de precisarem leva-la ao hospital. E já sabíamos que, quando esse momento chegasse, o fim chegaria junto. E chegou. Depois de duas semanas de minha primeira visita, o coração de Norma foi diminuindo o ritmo até parar de vez, no hospital, com sua família toda ao redor. Disseram que foi uma partida serena, sem dor. Agradeci muito a Deus pela Medicina e pela medicação que a manteve assim, confortável, até sua partida.

E ela tinha razão: aposto que, onde quer que ela esteja, está linda de novo!

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