Ouro sobre azul tradição litográfica
Decorria o ano de 1822, quando a arte litográfica apareceu pela primeira vez em Cuba. Um francês, Santiago Lessieur, abriu uma pequena oficina em Havana, mais precisamente na Rua de Compostela, destinada a imprimir pautas de música. Este foi apenas o primeiro passo, só mais tarde esta arte começou a ganhar destaque na ilha. Isto ocorreu em 1840 quando dois artesãos europeus se instalaram com materiais e equipamento já de grande precisão.
Chamavam-nas “La dos españoles y la dos franceses”. Depressa os insulares aprenderam a manusear a maquinaria, as pedras e as tintas provenientes do continente europeu. Aos poucos, os segredos da litografia foram-se revelando e as pedras calcárias de cor branca ou cinzento-azulada, vindas da Baviera, foram utilizadas para criar novas imagens gráficas de criação local.
Assim, a litografia em pedra, inventada por Aloys Senfelder em 1798, entrou definitivamente na vida do povo cubano. Sendo um método menos dispendioso do que os utilizados anteriormente, tornou-se o meio privilegiado para reproduzir obras de arte, gravuras em livros e revistas, sendo possível litografar milhares de imagens sem qualquer desgaste da pedra. O contrário acontecia anteriormente quando as placas utilizadas eram de cobre e ferro e que após 30 a 40 impressões perdiam a precisão. Depressa, a arte de litografar se associou a uma das mais prestigiadas culturas de Cuba: o tabaco.
Os produtores locais de charutos e cigarrilhas encontraram na litografia a expressão artística adequada para enriquecer esses produtos no mercado nacional e internacional. Estamos a referir-nos às etiquetas litografadas, primeiro a uma só cor e em papel de diferentes tonalidades pálidas. As etiquetas a cores só apareceram nos anos 80 do século passado. Ao se aliarem à arte litográfica, os charutos cubanos adquiriram um estatuto diferente, pois não só tinham uma apresentação mais requintada e bela, como também funcionavam como uma garantia contra as falsificações e imitações, muito frequentes na altura. Surge assim, nos finais do século XIX, “La habilitación”, como é designada pelos locais e que é o conjunto de etiquetas de variadas formas e tamanhos usadas para decorar as caixas de havanos.
Só posteriormente é que surgiram as cintas, uma estreita faixa de papel litografado colocado na parte superior do charuto, também conhecido em Cuba como vitola. Daí chamar-se vitolfilia quando se fala da arte de coleccionar estas belíssimas contas, actividade com muitos adeptos em todo o mundo, tal como o coleccionar as etiquetas coladas nas caixas da apreciada mercadoria de aroma refinado. A designação utilizada para esta última é habilitofilia, palavra derivada de “habilitación”.
O interesse por estas duas artes deriva não só da beleza das cintas e das etiquetas mas também da raridade de algumas, em especial de exemplares cromolitografados. Estes resultam de um intenso e moroso processo que envolve mais de uma dúzia de especialistas altamente qualificados. Cada nova cinta ou etiqueta exigia a preparação de uma nova pedra calcária da Bavária para a cor a ser utilizada. A maioria das cintas requer oito a onze cores diferentes para produzir a imagem final. O primeiro passo deste longo processo de criar uma cinta nova começa com o litógrafo, criativo que transfere para a pedra a ideia do que pretende criar. A seguir, a pedra é limpa e polida com uma fina solução de goma-arábica, que depois é retirada, deixando apenas uma fina camada de goma que impermeabiliza a pedra.
O desenho é posteriormente lavrado na goma, usando utensílios afiados. Esculpir a pedra é um processo entediante, pois praticamente todo o trabalho exige grande cuidado e precisão, além de que é todo feito com o auxílio de uma lupa. É necessário um cuidado extremo para não lavrar mais fundo do que a camada de goma pois, caso contrário, a pedra absorveria a cor. A pedra é lavada e em seguida aplica-se a cor, que adere apenas às partes gravadas e que serão posteriormente impressas no papel humedecido. Este processo repete-se consoante o número de cores e desenhos que compõem a cinta.
Apesar de ser um processo muito pouco prático aos nossos olhos, constituiu uma inovação de grande importância no seu tampo e produziu sem dúvida verdadeiras obras de arte. Muitas das litografias são tão perfeitas que as podemos comparar com quadros a óleo. A cromolitografia decaiu a partir de 1920, altura em que a indústria tabaqueira de Cuba sofreu um período de recessão. A tecnologia criou meios mecânicos menos dispendiosos e mais rápidos, que facilmente substituíram a arte de criar magníficas cintas e etiquetas, cheias de cor e brilho. Únicas em beleza e perfeição, as cintas e etiquetas deste período são uma preciosidade.
Há quem, cubano de nascença, defenda que esta arte deveria ser retomada para bem do prestígio dos seus puros. Sem dúvida que retomar os mesmos métodos do passado parece um pouco exagerado, só que retomar os desenhos e a riqueza de outrora seria uma reminiscência um pouco romântica, mas bem-vinda desde que tomasse um cariz mais contemporâneo. Foi através da música que a litografia entrou em Cuba, mas foi a indústria tabaqueira que fomentou o seu desenvolvimento e permitiu que esta arte atingisse o seu auge e hoje fizesse as delícias dos coleccionadores, que não se cansam de admirar o brilho das cores, os relevos e os dourados, feitos então com o pó de ouro.
Como se refere a eminente investigadora Zoila Lapique: “Admiro tanto esta arte dos nossos artesãos litógrafos que desde muito jovem comecei a consultar velhos livros sobre o assunto e ainda procurei descobrir a verdadeira história da litografia no nosso país, determinando qual a primeira oficina que funcionou em Cuba.” Como ela, muitos são os que se encantam e continuam a pagar pequenas fortunas por essas obras-primas em miniatura.
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