Malabarismos? Não, obrigado.

Certo dia, quando passava por uma construção junto com um amigo, este reparou na obra e parou de andar de repente. Ficou olhando para o alto da construção, observando os trabalhadores em seus afazeres. De repente, soltou a dita: “Eles estão pensando que são do Cirque du Soleil?”. Claro que a frase acordou minha curiosidade e olhei para a mesma direção imediatamente para tentar entender o que estava acontecendo lá em cima que tivesse merecido uma troça como aquela. E quando vi, tive que concordar: realmente parecia que aqueles trabalhadores se viam como tal.

Era um prédio com coisa de 5 andares, e parecia que ia ficar mais alto ainda. Sobre ele, pouco mais de 10 trabalhadores andando de um lado para o outro, alguns aguardando materiais que eram constantemente enviados pela equipe que estava cá em baixo, outros carregando, baldes improvisados com latas de tinta (um clássico de toda obra), vergalhões, ferramentas pesadas, etc. Até aí, tudo bem. Mas o que estava errado é que todos usavam capacetes – e só. Nenhum portava luvas, nem cintos de segurança – e se nem cintos usavam, então é óbvio que não estavam presos a ponto algum. A cinco andares de altura, NADA estava impedindo que um trabalhador descuidado viesse de encontro ao solo. Uma equipe inteira quase sem equipamento de proteção individual algum.

Picadeiro infeliz

A-imprudência-dos-obreiros,-pode-gerar-graves-consequências.Nem me lembro qual assunto imperava em nossas conversas até aquele momento; só sei que, a partir de então, a falta de bom senso daqueles funcionários e de sua chefia passou a vigorar. Afinal, como é possível que nem mesmo o simples receio de cortar a mão em uma lata enferrujada e repleta de sujeira convencesse um deles a usar luvas adequadas para manuseá-la sem riscos? Como é que o tão comum medo da queda não convenceu nenhum deles a usar um cinto de segurança e o prendesse a um ponto fixo para evitar acidentes provavelmente fatais? Nem mesmo aqueles que transitavam mais perto das beiras usavam um!

De fato, parecia coisa de circo. O que aliás é uma comparação injusta, já que mesmo naquele renomado e respeitado circo, usa-se equipamento de proteção com boa frequência. Ao observarmos com atenção a um número de malabarismos aéreo, por exemplo, podemos notar que na maioria das vezes o artista está preso pela cintura a um cabo de aço – fino o bastante para aparecer o mínimo possível, flexível o bastante para não atrapalhar o número e forte o bastante para deter uma queda acidental com a maior eficácia possível. Quando o número e de trapézio, os cabos não estão presentes porque atrapalhariam todos os movimentos, mas há sempre a rede de proteção logo abaixo, forte, flexível e íntegra.

Sim, os artistas do Cirque du Soleil são grandes malabaristas e equilibristas, pulando, saltando e girando de um ponto a outro (muitas vezes de um par de ombros a outro) com a mais absurda facilidade – porém, não abrem mão da segurança. Ora, se eles que têm tanta expertise não abrem mão dos equipamentos de proteção em seu trabalho, por que então aqueles funcionários abriram? Eles, que não são peritos em equilibrismo nem em saltos e fugas mirabolantes de situações complicadas?

Um velho mau hábito brasileiro

O-prejuízo-fica-para-ambos-os-lados.Mas por que aqueles trabalhadores do prédio não estavam usando, então? Negligência de ambos os lados é a resposta mais provável (Funcionário que acha o equipamento desconfortável, e o patrão que não fiscaliza corretamente seus empregados). De longe, é facilmente perceptível que cada um estava usando capacetes de proteção, o que dava a falsa impressão de que usavam o EPI completo. Mas o olhar mais atento do meu amigo é que puxou minha atenção e pude reparar que, de fato, todos os equipamentos estavam faltando.

Será que não haviam mais equipamentos de proteção disponíveis? Ou haviam, mas foram negligenciados pelos funcionários? No primeiro caso, a culpa seria só do empregador; no segundo, dele e dos funcionários, cabendo inclusive processos pesadíssimos por parte do Ministério do Trabalho. Bastava apenas uma simples denúncia, que podia partir tanto de um dos funcionários da obra quanto de uma testemunha. Por isso, que alguns acidentes acabam nos acontecendo, pela mania de falar que “comigo isso não acontece, e nunca vai acontecer”, e o resultado é encontrado em alguma tragédia que poderia ser evitada.

Se denunciamos? Não, mas esse meu amigo foi à obra conversar com o encarregado e chamar sua atenção. Como não passei mais por aquela rua, não sei se surtiu efeito. Resta esperar que sim.

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