Medicina, tecnologias e atendimento rural

Logo que me formei em Medicina, dei um tempo nos estudos e resolvi partir pra clínica geral. As cidades já são superlotadas de médicos profissionais e recém-formados, então peguei um caminho diferente: fui para a zona rural.

E eu não imaginava o desafio que seria. Na cidade, grande parte dos pacientes é bastante escolarizada e consegue descrever muito bem os sintomas que estão sentido e outros pormenores, mas na roça (não acho o termo pejorativo, já que os próprios moradores da zona rural o utilizam) a coisa é diferente. A escolaridade em geral é baixa e a descrição dos sintomas fica turva.

Certa vez atendi a uma paciente que trabalhava numa plantação de hortaliças. Chegou toda limpinha e perfumada, mas com as unhas sujas de terra, o que denunciou suas atividades principais. Engraçado como essas pessoas se arrumam tanto para uma consulta, é quase como se fossem à missa! Mas enfim: ela se queixou de “dor nos quartos que ficava subindo e descendo”.

Eu precisava que ela fosse mais precisa que isso, mas por mais que ela tentasse, não conseguia explicar muito além disso.

Perguntei que médico a atendia antes e ela me informou o nome com bastante dificuldade (o nome era estrangeiro), e disse que ele anotava o que ela dizia num “computadô”. Pensei: “será que ele usava um sistema de prontuário eletrônico do paciente aqui??”. Entrei no sistema (instalei e me cadastrei assim que obtive meu CRM) e lá estavam as informações sobre ela.

Prontuário Eletrônico

Cirurgia prévia

Aquela paciente tão simpática e tão simples já havia sido operada uma vez, para retirar o apêndice, e não fazia muito tempo. Na verdade, tinha só 20 dias que ela havia operado. Tornei a olhar aquelas unhas sujas e fiquei preocupado.

– Dona Eleutéria, a senhora operou pra tirar o apêndice tem pouco tempo, não tem?

– Ué, isso tá aí no computado?? Tem sim, eu senti uma dor muito forte aqui nos quarto e eu vim ver o dotô. Aí ele me operou na mesma hora caus que o apêndis tava todo arrebentado aqui dentro. Mais já faiz umas trêis semana, já.

– E a senhora já está trabalhando de novo?

– Tô, meu fí. A hortinha de alface lá tava precisando cuidá, aí deu sete dia e eu voltei lá pra carpi, caus que tava dando tiririca.

Gelei. Aquela mulher foi pegar na enxada sete dias depois de uma cirurgia de remoção de apêndice! E agora volta ao consultório reclamando de dores na região. Meu medo era que a cirurgia estivesse toda aberta nos pontos internos.

Imediatamente a encaminhei à sala de ultrassom (conseguida com muito custo pela prefeitura) e ficou confirmado: ia ser preciso operar outra vez. Se não fosse o prontuário eletrônico da paciente, isso ia demorar dias, e ela não tinha esse tempo. Foi operada no mesmo dia – e dessa vez, o tempo de resguardo seria bem maior.

Tecnologia que salva vidas

Atendi muitos casos que só consegui elucidar porque o médico que atendeu naquele pequeno posto antes de mim usava o sistema de prontuário eletrônico do paciente. Como ele passou muitos anos naquele local, conseguia entender até as explicações mais superficiais, com direito às gírias e maneirismos daquele povo. E, sim, no sistema de prontuário, ele codificava aquelas informações para os termos médicos.

Atendi casos de crianças que apresentavam deformações nas pernas ou braços e que haviam sofrido múltiplas fraturas naqueles membros por causa das brincadeiras, gestações de risco por motivos que poucas mulheres ali sabiam informar (mas sempre remetiam ao médico anterior, e lá ia eu para o sistema de prontuário), idosos que não sabiam o nome dos medicamentos que precisavam tomar…

O sistema me salvou muitas vezes, e me ajudou a salvar muita gente, também. Por causa disso, costumo ganhar galinhas, pés de alface e almeirão, tomates, espigas de milho e convites para festas juninas e de padroeiros, que são sempre muito celebrados nas roças!

Meus planos eram: ficar ali um ano ou dois, e voltar pra cidade. Mas aquele povo me cativou de um jeito… Acho que vou é ficar!

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