Óbidos: Fotos, História e Cultura

Óbidos – mui nobre e sempre leal

Quem passa em Óbidos mal pode imaginar a importância que a terra já teve. Vila de rainhas e lugar escolhido para refúgio de reis. Recolhimento de Inês de Castro e paixão da Rainha Santa. Ali casaram monarcas. Numa terra cujas origens se perdem nas brumas dos tempos. Ruas estreitas e igrejas monumentais. Portugal intocado.

Tiles by candlelight - Obidos, Portugal

Óbidos, pendurada em cima de um monte, rodeada da muralha, envolta em planícies verdejantes e com o mar ali ao pé… Foi sempre uma terra de rainhas e quem hoje a vê mal pode imaginar o poder e a importância que já teve noutros séculos. D. Afonso II foi o primeiro rei português a doar a vila de Óbidos a sua mulher, a rainha D. Urraca, por escritura lavrada em Coimbra em 1210.

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Mais tarde, o rei D. Dinis oferece-a como presente de casamento a D. Isabel, em 1281.

O documento de doação reza assim: “Seja notório a todos que nós D. Diniz, pela graça de Deus, Rei de Portugal e do Algarve, damos e consignamos – propter nuptia – a vós D. Izabel, filha do ilustre Rei D. Pedro, por graça de Deus, Rei de Aragão e da Rainha D. Constança, a qual recebemos por mulher conforme a lei de Nosso Senhor Jesus Cristo, as nossas Villas, convém a saber Óbidos, Abrantes e Porto de Mós as quaes Villas queremos e concedemos que vós tenhaes e possuaes com todas as suas rendas.” É desde esta altura que a vila fica a fazer parte da Casa da Rainha, estatuto que mantém até 1834, quando esta Casa é extinta. Só durante a dominação espanhola as rainhas não são senhoras de Óbidos.

Óbidos

Mas a Rainha Santa teve uma muito especial predilecção por esta terra. Sendo uma mulher muito piedosa, dotou a vila com várias instituições que protegiam os mais pobres e desamparados. Em 1309 funda a gafaria – casa de recolhimento para leprosos.

E é também a expensas de Santa Isabel que é construído um convento de freiras da ordem de São Domingos, cujas monjas eram conhecidas como “Emparedadas”. Leonor Telles, mulher do rei D. Fernando, manda rasgar na rocha uma porta que é conhecida como Porta da Talhada ou Porta da Rainha, e ao marido, D. Fernando, fica a dever-se o melhoramento e restauro do castelo e da muralha. Uma outra Leonor, também rainha de Portugal, D. Leonor de Lencastre, casada com D. João II, manda fazer em Óbidos o Paço da Rainha e faz grandes estadas na vila, sobretudo no Verão.

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E é para Óbidos que vai chorar a morte do príncipe Afonso, seu único filho e herdeiro da Coroa – o infante morreu aos 16 anos, nos arredores de Santarém, quando indo ter com o pai caiu do cavalo. A D. Leonor de Lencastre se deve a instituição das Misericórdias. A primeira que a rainha fundou foi a de Lisboa. A de Óbidos, em 1498, foi a segunda e durante séculos uma das Misericórdias mais ricas e importantes do país. É também por causa desta rainha que as Caldas da Rainha se chamam assim. A 5 km de Óbidos, as nascentes de águas termais eram muito frequentadas por Leonor de Lencastre, que nesse local manda construir um hospital, em 1503.

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Catarina de Áustria, rainha de Portugal pelo casamento com D. João III, manda construir em Óbidos o aqueduto e vários chafarizes que abastecem de água a vila. O declínio da terra começa no século passado, quando a vila deixa de fazer parte da Casa da Rainha. E só neste século volta a ganhar fama. Não por ter recuperado a importância política e económica de outros tempos. Mas por se ter mantido uma vila medieval, entre muralhas, com ruelas estreitas e casas brancas. Uma verdadeira vila-museu.

Óbidos

A visita pode começar entrando pela Porta da Vila e logo aí vale a pena fazer uma paragem pare ver o oratório que, num varandim, guarda a imagem de Nossa Senhora da Piedade, padroeira da vila. De um lado e de outro do altar, as paredes são revestidas de azulejos do século XVIII. O da direita representa a agonia de Jesus no horto. O da esquerda mostra São Pedro a cortar com a espada a orelha de Malco. Por esta porta se entra na Rua Direita, principal artéria do burgo. Deve tomar-se nota das portas e das janelas.

E espreitar pelas vielas que desta rua saem. Numa delas, à direita de quem segue em direcção ao castelo, há uma janela manuelina que merece ser vista. Seguindo sempre pela Rua Direita chega-se ao Pelourinho, coluna de granito antiquíssima, que tem no topo uma pequena cruz de ferro.

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Fica encostado ao paredão do Chafariz da Praça, o maior e mais importante da terra, que como já atrás se disse foi mandado construir por D. Catarina de Áustria. Mesmo em frente deste chafariz está a Igreja de Santa Maria, matriz de Óbidos. No século VIII era um templo visigótico que durante as invasões muçulmanas foi transformado em mesquita e volta a ser uma igreja católica com a reconquista da vila.

Ao longo dos séculos sofreu várias alterações e melhoramentos. Em 1571, o prior de Santa Maria, confessor da rainha D. Catarina e Esmoler-Mor do reino paga do seu próprio bolso um importante restauro desta igreja. O interior do templo está dividido em três naves, assentes em colunas dóricas, e os tectos estão cobertos por painéis de madeira, decorados com pinturas de um Renascimento tardio que data já do século XVII.

O altar-mor e as duas capelas laterais estão cerca de um metro acima do corpo da igreja e a eles se sobe por duas escadas laterais. As paredes de Santa Maria estão revestidas de azulejos pintados em 1693 por Gabriel del Barco que, segundo uns, era italiano e, na opinião de outros, espanhol. São de Josefa de Óbidos os cinco quadros que num dos altares laterais representam cenas da vida de Santa Catarina.

Mas outros pintores de Óbidos, como João da Costa e Baltazar Gomes Figueira, assinaram as outras pinturas que estão nesta igreja. À esquerda do altar-mor está o túmulo de D. João de Noronha, o Moço (filho de D. João de Noronha, o Velho, ambos alcaides-mor da vila, o pai em 1468 e o filho em 1495), e de sua mulher, D. Isabel de Sousa. É uma obra do chamado “Renascimento Coimbrão”, em pedra de Ançã, que alguns autores atribuem a João de Ruão e outros a Nicolau de Chanterene.

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Continuando, ainda, pela Rua Direita, chega-se à Igreja de São Tiago do Castelo, reconstruída depois do terramoto de 1755 sobre as ruínas de um templo mandado edificar por D. Sancho I em 1186. Antes de entrar no castelo há que subir a escadaria desta igreja e olhar à esquerda: é um dos recantos mais bonitos e menos conhecidos da vila. Uma mistura de paredes e pedras difícil de igualar. O Castelo de Óbidos foi, há alguns anos, transformado em pousada e é propriedade da Enatur. Uma forma feliz de preservar o monumento, ao mesmo tempo que se lhe dá utilidade.

Mas Óbidos não é só a Rua Direita. Deixe-se perder nas ruelas estreitas e que descem quase a pique. Não perca a visita à Capela de São Martinho, a mais antiga da vila, um exemplar de arquitectura gótica construído em 1331 por Pero Fernandes. Mesmo em frente fica a Igreja de São Pedro.

O Museu Municipal está instalado na casa mandada construir por D. João IV, onde, com a mulher, D. Luísa de Gusmão, durante algum tempo estabeleceu a sua Corte. Depois, a casa passou a ser a cadeia da vila e, mais tarde, foi a sede dos Paços do Concelho.

Óbidos

Óbidos é uma das vilas mais antigas de Portugal. Há quem defenda que já no ano de 308 a.C. era um castro celta. A influência romana ainda hoje perdura em alguns pedaços da muralha. Existia, seguramente, como aglomerado populacional quando os árabes invadiram a Península e foi reconquistada a 10 de Janeiro de 1148 por Gonçalo Mendes da Maia, o Lidador, fronteiro-mor de D. Afonso Henriques, que tomou a vila aos mouros depois de um longo e duro cerco. Em 1224 D. Sancho II, desavindo com o clero, estabelece temporariamente a Corte portuguesa em Óbidos.

É também no castelo desta vila que vive recolhida, durante parte do reinado de D. Afonso IV, a infeliz Inês de Castro. No dia 12 de Agosto de 1427, D. João I, primeiro monarca da Dinastia de Avis, está em Óbidos e manda que em Portugal o calendário mude da Era de César para a Era de Cristo. Há quem diga que é nesta vila que o sábio D. Duarte escreve A Arte de Bem Cavalgar Toda a Sela.

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E segundo conta o cronista Ruy de Pina, é na Igreja de Santa Maria, em Óbidos, que D. Afonso V casa com sua prima D. Isabel (o rei tinha 10 anos e a futura rainha 8). “Mui nobre e sempre leal” é o título que, ainda hoje, usa esta vila pequenina, aninhada entre muralhas. Caixa de surpresas por onde passaram todos os acontecimentos marcantes da História de Portugal. Depois, foi ficando cada vez mais longe do centro dos acontecimentos… e até o mar, que em séculos passados lhe chegava aos pés, se foi afastando e se tornou uma miragem. Mas Óbidos continua a ser um ex-líbris português. Um lugar de passagem de milhares de visitantes.

Um sítio especial. Onde em cada canto há qualquer coisa para descobrir. Um museu vivo. Nem que seja apenas para Beber uma ginja em copo de chocolate já merece a sua visita.

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