Uma deprê de leve

A síndrome do irmão do meio é um problema que tem solução e não deve ser menosprezado; saiba como!

A síndrome do irmão do meio é um problema que tem solução e não deve ser menosprezado; saiba como!

Lá em casa somos três irmãos, e eu sou o do meio. Nunca tivemos uma vida de luxo, mas sempre fomos da boa e velha classe média, raladores profissionais que conseguem o que precisam à base de muito esforço – mas conseguem. Como nossos pais se separaram cedo, um peso muito grande caiu nos ombros da nossa mãe, e víamos o esforço dela em manter a casa, nossos estudos, nossos alimentos… Então, logo que fomos chegando aos 16, fomos procurando um trabalho, mesmo que informal, pra ajudar em casa.

Já ouviu falar da síndrome do irmão do meio? É triste. Você não é imbuído da maior responsabilidade e confiança como o mais velho e nem é o mais protegido como o caçula; você é “o do meio”, perdido num limbo imaginário. Sempre haviam decisões certas para os irmãos das pontas – e para mim, ficava o que restava. Meu irmão caçula achava ótimo porque poucas tarefas iam para ele (era meio preguiçoso). Tentei ser como ele e ir na onda do menor esforço – me senti um bobo. Aí tentei imitar meu irmão mais velho e me enchi de responsabilidades, mesmo trabalhando e estudando. Me ferrei bonito! Cheguei a um nível de stress tal que precisei de psiquiatra e Ritalina. Meu rendimento nos estudos e no trabalho caíram de um jeito de me deu vontade de desistir de tudo.

Bancando o mímico

O grande erro dos irmãos do meio é agirem como o irmão caçula ou como o irmão mais velho se comporta, sendo "mímicos" despersonalizados e estimulando a depressão.

O grande erro dos irmãos do meio é agirem como o irmão caçula ou como o irmão mais velho se comporta, sendo “mímicos” despersonalizados e estimulando a depressão.

Na verdade, o que eu fiz, pelo que fiquei sabendo, é comum entre os irmãos do meio que se sentem meio “despersonalizados” em meio à família imediata (pais e irmãos). A gente não sabe muito bem qual é nossa posição, nossa função – e como ninguém explica (até porque todo mundo já sabe bem seus lugares), tentamos nos encaixar na função de um deles. Só que nem sempre a gente consegue se identificar com aquela função, então parte pra outra e, quando percebemos que estamos fracassando em todas, nos esforçamos além do nosso limite (numa função que não é nossa) e aí a cabeça cobra o preço.

Eu passei a precisar da Ritalina para conseguir focar nas minhas obrigações iniciais de novo (meus estudos e o emprego informal que eu tinha), porque sozinho eu não estava conseguindo. À base de muita terapia, aos poucos fui conseguindo diminuir a dosagem até poder tirá-la de vez do meu cardápio. Foi ótimo, porque ela me dava uns colaterais meio chatos como dores de cabeça, boca seca e um certo nervosismo inexplicável de vez em quando.

Devagar com o andor

Meu terapeuta só concordou em tirar a Ritalina depois que sentiu que eu já estava entendendo melhor meu lugar lá em casa, mas esse processo foi difícil para mim e levou uns bons meses. Eu precisava entender que tinha minha própria função como irmão do meio, e ela não era a mesma dos outros irmãos – o problema é que ninguém estava me dizendo o que era. Aí ele chamou minha mãe pra conversar.

Em geral, filhos “do meio” passam pelas mesmas dificuldades que eu, mas se manifestam de forma diferente. Eu fiquei meio perdido e comecei a imitar meus irmãos tentando achar meu lugar, mas outros podem desenvolver uma personalidade mais forte e conflituosa; alguns se tornam exímios colecionadores de sucessos acadêmicos (mas não alcançam felicidade no processo); outros alcançam vitórias financeiras conquistando uma vida financeira estável e próspera antes mesmo de fazer trinta anos – e de novo, sem felicidade. Tentam provar que “estão ali” a todo custo.

O que ninguém explicou (nem pra mim e, aparentemente, nem pra vários outros filhos do meio) é que não há cobranças pra nenhum dos irmãos; cada um é livre para seguir com a vida que desejam e buscar as metas que querem alcançar sem se preocupar se é a mesma do outro – porque nenhum deles é igual ao outro. Não existe a obrigação do mais velho cuidar dos mais novos, ou ser mais bem-sucedido que eles. O que os pais não explicam é que querem ver os três felizes e livres dessas amarras virtuais. Quando todos nos sentamos e conversamos sobre isso é que entendi meu lugar – na verdade, todo mundo entendeu onde devia estar.

Aí, sim, a carreta de chumbo saiu das nossas costas.

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